Um baralho, uma mesa, boa companhia = muitas horas de diversão
Nós, humanos, divertimo-nos com os jogos de cartas há quase mil anos, e ainda hoje continuam a ser um pequeno refúgio face ao excesso de ecrãs, ao vício das redes sociais e a essa escravidão constante das notificações que reclamam a nossa atenção a cada instante.
Tal como a irredutível aldeia gaulesa do Astérix a resistir ao Império Romano, os jogos de cartas mantêm-se firmes, graças a Deus, a lembrar-nos o valor do simples e do partilhado.
Basta um baralho, uma mesa, um momento sem pressa e alguém que diga: «que tal uma partida?». A partir daí pode acontecer de tudo: um almoço que se estica até à tarde, um dia chuvoso que deixa de parecer cinzento, uma partida improvisada nas férias ou aquela pequena rixa familiar que acaba em risos — mesmo que alguém jure que nunca mais joga.
Por tudo isto, aconteça o que acontecer, continuaremos a jogar às cartas.

Nesta página podes aceder a uma explicação clara e precisa de como se joga a vários jogos de cartas clássicos e populares, tanto com baralho espanhol como com baralho francês, além de alguns jogos mais modernos com baralho próprio.
São explicações breves, claras e muito visuais que te servirão de referência rápida. Apresentamos também variantes, jogos parecidos e curiosidades para quem queira aprofundar mais.
Sabemos que os jogos populares não têm regras oficiais, e sabemos perfeitamente (porque também o fazemos) que muitas famílias têm as suas próprias variantes, as suas regras de casa e, inevitavelmente, as suas pequenas discussões sobre o significado de «é assim que se joga desde sempre!», sem esquecer aquela avó que aplica uma «batota legal» que ninguém viu chegar. E ainda bem que assim é!

Dito isto, as regras que te explicaremos no LOODENS são o mais próximo de regras oficiais dos jogos de cartas clássicos e populares que podes encontrar, pois fizemos um estudo aprofundado do tema consultando e analisando dezenas de livros de vários autores, todos eles eruditos e apaixonados pelos jogos de cartas. Em cada jogo indicaremos as referências e a bibliografia utilizadas.
Nessa mesma linha, quisemos também manter-nos fiéis ao jargão tradicional dos jogos de cartas, empregando termos como vaza, baceta, trunfo, distribuidor ou cortar. Em cada jogo explicaremos o significado dos termos usados, embora mais abaixo encontres um glossário básico utilizado nos jogos de cartas, caso fiques curioso. Não é necessário decorá-lo antes de jogar, mas vai ajudar-te a familiarizares-te com a linguagem própria das cartas.
Aqui e agora, tens uma lista com uma breve descrição e dados básicos dos jogos de cartas que temos atualmente explicados no LOODENS:

















































De seguida encontrarás informação complementar e geral sobre os jogos de cartas, para quem gosta de aprender e saber mais do que os outros 😉
Os jogos de cartas podem agrupar-se em «famílias» segundo a mecânica de jogo. Os jogos mais complexos podem misturar várias destas mecânicas.
Aqui tens uma lista exaustiva dos tipos de jogos existentes:
É a categoria rainha na Europa. Joga-se por rondas (vazas) onde cada jogador deita uma carta e quem põe a mais forte na mesa leva-as todas. Costumam incluir a figura do «trunfo», um naipe que manda sobre os demais.
Aqui o objetivo não é ganhar vazas, mas formar grupos de cartas do mesmo valor (trincas, quadras) ou sequências do mesmo naipe na mão. Quando consegues combinar todas as tuas cartas, podes «baixar» ou fechar a partida.
Nestes jogos, o valor numérico das cartas é o mais importante. Tens de atingir um valor exato ou aproximar-te o máximo possível sem passar, ou então capturar cartas da mesa que somem um valor determinado.
São jogos psicológicos. Nem sempre ganha quem tem as melhores cartas, mas quem sabe melhor apostar ou enganar os outros. Baseiam-se na «aposta» (o desafio) e no «bluff» (fazer crer que tens algo que não tens).
Aqui a habilidade mental passa para segundo plano face à coordenação física. Costumam ser jogos muito dinâmicos onde é preciso reagir a uma carta específica ou ser o primeiro a livrar-se das cartas da mão.
Embora a memória seja útil em quase todos os jogos para recordar que cartas saíram, há modalidades pensadas especificamente para a exercitar, baseando-se na posição ou no descarte das cartas.
Nestes jogos a habilidade do jogador é inexistente ou secundária. Tudo depende da sorte ao distribuir ou tirar as cartas. São típicos dos ambientes de casino onde se aposta contra a «banca».
Jogos concebidos para uma só pessoa. O objetivo costuma ser ordenar o baralho completo seguindo regras muito estritas de colocação e naipes, funcionando quase como um puzzle.
O objetivo principal é ser o primeiro a ficar sem cartas na mão. Não se trata de ligar combinações complexas, mas de largar cartas seguindo uma ordem ou hierarquia.
Nestes jogos, a vitória depende da capacidade do jogador para analisar a informação disponível (descartes, declarações ou sinais) e deduzir que cartas têm os outros ou que estratégia estão a seguir.
Nota sobre a classificação: Como podes ver, muitos jogos são híbridos. Por exemplo, o Mus é um jogo de aposta (pela mecânica), de dedução (pelos sinais) e profundamente social (pela dinâmica nos cafés).

Muitos jogos de cartas partilham um vocabulário próprio. Alguns destes termos já os conheces de toda a vida; outros, quase de certeza que não.
Conhecê-los vai ajudar-te a perceber melhor e mais depressa as regras dos jogos de cartas. Não é preciso fazê-lo agora, porque daremos também a definição em cada jogo onde forem usados.
Organizámos o glossário de forma pedagógica: primeiro aparecem os conceitos mais básicos e a seguir os termos que dependem deles. Assim podes lê-lo de cima a baixo sem encontrar, pelo menos em teoria, um conceito que remeta para outro que ainda não foi explicado. Como tem de ser!
O conjunto de cartas que se usa para jogar. O baralho espanhol mais comum tem 40 cartas: ouros, copas, espadas e paus, com cartas do Ás ao sete e três figuras: valete, cavalo e rei — também há baralhos de 48 cartas com 8 e 9. O baralho francês — de copas, espadas, paus e ouros — tem cartas do Ás ao 10 mais J, Q e K, num total de 52 cartas.
Cada uma das famílias de cartas de um baralho. No baralho espanhol são ouros, copas, espadas e paus. No baralho francês são copas, espadas, paus e ouros. Em muitos jogos, o naipe importa tanto como o número da carta.
Os quatro naipes do baralho espanhol. Algumas regras dão um valor especial a um naipe concreto, como acontece com os ouros na Escoba.
As cartas com personagem: valete, cavalo e rei no baralho espanhol; J, Q e K no baralho francês. O seu valor muda consoante o jogo.
Pilha de cartas, normalmente voltadas para baixo, de onde se distribuem ou tiram cartas durante o jogo.
O jogador que distribui as cartas. Em muitas regras chama-se-lhe simplesmente «aquele que dá». A vez de distribuir costuma passar de um jogador para o seguinte depois de cada mão. Nos jogos com baralho espanhol, a vez de distribuir passa em geral para o jogador à direita do distribuidor, ou seja, no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Nos jogos com baralho francês costuma ser ao contrário.
Um dia vai ter de se investigar porquê dessa diferença 🤔 Embora o baralho francês também se chame baralho inglês, e os ingleses… os ingleses fazem muitas coisas «ao contrário» do resto do mundo. Por exemplo, conduzem pela esquerda, as rotundas dão-nas no sentido dos ponteiros do relógio… Alguma relação deve haver.
Separar o baralho em duas partes depois de o baralhar e antes de distribuir. É uma forma simples de evitar que o distribuidor controle a ordem das cartas. É também um daqueles pequenos rituais de mesa que fazem com que uma partida comece a sério. O distribuidor oferece o baralho para cortar ao jogador que foi distribuidor na partida anterior: na tradição do baralho espanhol é o da sua esquerda e, nos jogos com baralho francês, costuma ser o da direita.
O momento em que se distribuem as cartas pelos jogadores. Cada jogo tem a sua própria distribuição: três cartas na Bisca, sete no Chinchón, todas as cartas n’A Mona, etc. As cartas costumam distribuir-se uma a uma a começar pelo jogador que está do lado oposto ao que cortou o baralho. Se eu sou o distribuidor e dou a cortar o baralho ao jogador à minha esquerda, começo a distribuir a partir do jogador à minha direita. Alguns jogos permitem distribuir três a três.
O momento em que é a vez de um jogador jogar. Nos jogos de cartas convém respeitar bem a ordem da vez, porque muitas regras dependem de quem joga antes e quem joga depois.
Os pontos que se contam numa partida. Algumas cartas valem um certo número de pontos, tal como certas jogadas, e em muitos jogos ganha quem chega primeiro a uma quantidade combinada de pontos.
Carta que não tem valor em pontos num jogo concreto. Na Bisca, por exemplo, muitas cartas numerais não somam pontos, embora possam servir para ganhar ou perder uma jogada.
É a unidade mínima de disputa. É o conjunto de cartas (uma por cada jogador) que se põem em cima da mesa em cada vez. No final dessa volta, alguém ganha a vaza e recolhe as cartas.
Jogos em que a partida avança por vazas. Cada jogador joga uma carta, decide-se quem ganha essa volta e o vencedor leva as cartas jogadas. Às vezes interessa ganhar muitas vazas. Outras vezes, só as que têm cartas valiosas.
Pode significar várias coisas consoante o contexto:
Naipe que ganha aos restantes naipes durante uma mão ou partida. Se o trunfo é ouros, uma carta de ouros pode ganhar a cartas de outros naipes, mesmo que essas sejam mais altas. É uma das ideias-chave em jogos como a Bisca ou o Tute.
Carta que pertence ao naipe de trunfo. Em alguns jogos, uma carta descoberta por baixo do monte indica qual será o naipe de trunfo durante a mão.
Jogar uma carta do mesmo naipe da carta de saída de uma vaza. Nalguns jogos é obrigatório assistir se puderes. Noutros, como a Bisca, nem sempre existe essa obrigação.
Situação em que um jogador não tem cartas de um naipe. Estar em renúncia pode ser uma vantagem, porque permite jogar trunfo quando os outros esperam que sigas o naipe de saída.
Jogar uma carta de trunfo porque não tens cartas do naipe de saída. Por exemplo: se alguém sai com copas, tu não tens copas e jogas um ouro porque os ouros são trunfo, estás a trunfar. Sim, soa estranho e podes até achar desnecessário usar este termo, mas verás que em alguns jogos usar estes conceitos ajuda a perceber melhor as regras e a evitar mal-entendidos com os adversários.
Jogar uma carta que ultrapassa outra e passa a ser a carta vencedora nesse momento. Em jogos com trunfo, uma carta de trunfo pode bater cartas de outros naipes.
Jogar um trunfo mais alto do que outro trunfo já jogado na mesma vaza. É uma forma de ultrapassar quem já tinha trunfado ou tentado ganhar a vaza com trunfo.
Sair a jogar uma carta de trunfo para obrigar os outros jogadores a gastar os seus trunfos, se as regras os obrigarem a assistir. É uma jogada muito importante em alguns jogos de vazas.
Resto do baralho que sobra depois da distribuição inicial. Em jogos como a Bisca, a baceta fica na mesa para que os jogadores vão tirando cartas depois de cada vaza.
Pegar numa carta do monte, da baceta ou da pilha indicada pelas regras. Nos jogos de cartas, tirar não significa fazer batota: significa pegar numa carta nova quando é a tua vez.
Jogar ou deitar fora uma carta que não queres guardar. Em alguns jogos descartas para terminar a tua vez, como no Chinchón. Noutros, descartas porque não podes assistir ao naipe de saída ou porque essa carta não te interessa.
Monte de cartas descartadas, normalmente voltadas para cima. Em jogos como o Chinchón, a pilha de descartes pode ser tão interessante como o monte, porque permite ver que cartas os outros deixaram escapar.
Grupo de cartas que cumpre uma regra concreta. Pode ser um par, uma trinca, uma sequência, um grupo de cartas iguais ou qualquer conjunto que o jogo considere válido.
Formar uma combinação válida com várias cartas. No Chinchón, por exemplo, podes ligar cartas formando grupos do mesmo número ou sequências do mesmo naipe.
Combinação de cartas consecutivas. Em muitos jogos têm de ser do mesmo naipe. Noutros, basta que os números sejam seguidos. Antes de jogar convém verificar se o ás pode ir só no início, só no fim ou em ambos os lados.
Três cartas do mesmo valor. Por exemplo, três setes ou três reis. É uma combinação habitual em jogos como o Chinchón e outros jogos da família do Rummy.
Terminar uma mão porque um jogador cumpre a condição necessária para o fazer. No Chinchón, fechar significa acabar a mão quando tens as cartas ligadas, ou quase ligadas, segundo a regra combinada.
Deixar de pedir cartas porque preferes ficar com a pontuação que já tens. Uma palavra muito usada em jogos como o Sete e Meio.
Jogada baseada em fazer crer algo que não é verdade. Em jogos como o Mentiroso, o bluff não é um mau hábito: é praticamente o coração do jogo.
Bibliografia de referência utilizada para o glossário
Botín, A. (2011). Todos los juegos de cartas. Barcelona: Ediciones Robinbook. ISBN 978-84-96746-58-9. Se este livro te interessa, está disponível na Amazon.
Carobene, B. (1979). El gran libro de los juegos de cartas. Barcelona: Editorial De Vecchi. ISBN 84-315-5155-0. Se este livro te interessa, está disponível na Amazon.
Fournier, H. (1995). Juegos de naipes españoles (22.ª ed.). Vitoria: Editorial Fournier. ISBN 84-85074-01-7. Se este livro te interessa, está disponível na Amazon.
Núñez Elvira, J. L. (1990). El gran libro de los juegos de cartas. Barcelona: Ediciones Martínez Roca. ISBN 84-270-1408-2. Se este livro te interessa, está disponível na Amazon.
Pibernat, J. L. (1998). Naipes. El fascinante mundo de los juegos de cartas. Barcelona: Editorial Aldaya. ISBN 84-487-0460-6.
Com um baralho espanhol pode jogar-se a muitos jogos populares: a Bisca, o Chinchón, a Escoba, o Sete e Meio, o Burro, A Mona, o Mentiroso, o Tute, o Cinquillo, a Pocha, o Mus e muitas variantes familiares. Alguns são jogos de vazas, outros de combinações, outros de memória, de bluff ou de somar pontos.
Se queres começar com jogos simples, experimenta A Mona, o Burro, o Mentiroso, a Escoba ou o Sete e Meio. Têm regras fáceis de explicar, partidas rápidas e não exigem muito vocabulário de cartas. Se o grupo já jogou alguma vez, a Bisca também é uma excelente opção.
Para dois jogadores funcionam muito bem a Bisca, a Escoba, o Chinchón, o Sete e Meio e algumas variantes de jogos de vazas ou de combinações. O ideal é escolher jogos em que cada vez traga decisões interessantes e a partida não dependa de ter um grupo grande.
Para crianças costumam funcionar melhor os jogos com regras claras, vezes rápidas e objetivos fáceis de perceber. A Mona, o Burro, o Mentiroso e uma versão simples da Escoba são boas opções. Além disso, muitos jogos de cartas ajudam a treinar memória, atenção, cálculo mental e tolerância a perder, sem transformar a partida numa aula.
O baralho espanhol pode ter 40 ou 48 cartas. O baralho espanhol de 40 cartas é o mais comum em muitos jogos tradicionais: tem quatro naipes e, em cada naipe, cartas do ás ao sete mais valete, cavalo e rei. O baralho de 48 cartas acrescenta os 8 e os 9.
Os naipes do baralho espanhol são ouros, copas, espadas e paus. Cada naipe tem as suas cartas numerais e as suas figuras. Em alguns jogos todos os naipes têm o mesmo valor. Noutros, um deles transforma-se em trunfo, ou certas cartas de um naipe específico dão pontos especiais.
O baralho espanhol usa os naipes ouros, copas, espadas e paus. O baralho francês usa copas, ouros, espadas e paus (no sentido das suits internacionais). Também mudam as figuras: no baralho espanhol há valete, cavalo e rei. No francês, valete (J), dama (Q) e rei (K). Alguns jogos podem adaptar-se de um baralho para o outro, mas nem sempre encaixam igual.
O trunfo é o naipe que tem mais força durante uma mão. Se um naipe é trunfo, as suas cartas podem bater cartas de outros naipes. Por exemplo, se os ouros são trunfo, um ouro pode ganhar uma vaza mesmo que uma carta de outro naipe seja mais alta. É uma regra central em muitos jogos de vazas.
Uma vaza é o conjunto de cartas que se jogam numa volta, normalmente uma carta por jogador. No final dessa volta, um jogador ganha a vaza e recolhe essas cartas. Em alguns jogos, como a Bisca, o que conta não é ganhar muitas vazas, mas ganhar as vazas que contêm cartas com pontos.
A baceta é o monte de cartas que sobra depois da distribuição inicial. Em muitos jogos fica voltada para baixo na mesa e os jogadores tiram cartas dela durante a partida.
Tirar uma carta significa pegar numa carta do monte, da baceta ou da pilha indicada pelas regras. Não tem nada a ver com fazer batota: nos jogos de cartas, tirar significa simplesmente pegar numa carta nova quando é a tua vez.
Descartar-se é desfazeres-te de uma carta da mão. Em alguns jogos descarta-se no fim do turno. Noutros, descarta-se porque não podes jogar uma carta do naipe pedido ou porque essa carta já não te serve.
Depende do grupo. Para uma sobremesa tranquila, a Escoba, o Chinchón ou a Bisca funcionam muito bem. Se houver crianças ou jogadores que não conhecem muitos jogos de cartas, A Mona, o Burro ou o Mentiroso costumam ser mais fáceis de pôr na mesa.
Não. A sorte influencia, claro, porque as cartas são distribuídas ao acaso. Mas muitos jogos de cartas também envolvem memória, cálculo, estratégia, observação e leitura dos outros jogadores. A graça está precisamente nisso: não controlas as cartas que te chegam, mas decides bem o que fazer com elas.
Porque um baralho permite jogar quase em qualquer sítio, com pouquíssimo material e com pessoas de idades diferentes. Os jogos de cartas são baratos, fáceis de transportar e perfeitos para partilhar tempo de verdade: falar, rir, pensar, competir um pouco e construir memórias à volta de uma mesa.